28/02/2017

INSTANTE
















INSTANTE



Sou apenas um instante,
partícula residual de tempo,
tatuada na memória da árvore.

Passageiro breve
de um volátil carrossel de nuvens.


Fernando Pedrosa


















Fotografia de Fernando Pedrosa


05/11/2016

RESSURREIÇÃO - MIGUEL TORGA

                 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 
 
 
 
 
 
 
 
RESSURREIÇÃO
 
 
 
 
Porque a forma das coisas lhe fugia,
O poeta deitou-se e teve sono.
Mais nenhuma ilusão apetecia,
Mais nenhum coração era seu dono.
 
Cada fruto maduro apodrecia;
Cada ninho morria de abandono;
Nada lutava e nada resistia,
Porque na cor de tudo havia outono.
 
Só a razão da vida via mais:
Terra, sementes, caules, animais
Descansavam apenas um momento.
 
E o vencido poeta despertou
Vivo como a certeza de um rebento
Na seiva do poema que sonhou.
 
 
Miguel Torga 







 
 
 
 
 
 
 
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Fotografia de Fernando Pedrosa
 
 
 
 
 
 

04/10/2016

P O R T U G A L

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

P O R T U G A L
 
 
O que fazes tu de olhar consumido nas fímbrias do nevoeiro?
 
Não adormeças os teus sentidos, nem te demores na contemplação
 
das sombras delirantes e abstratas da esperança vã
 
feita irmã da ilusão.
 
De lá não hão-de voltar em tua salvação
 
os heroicos soldados sem nome e com as espadas em sangue.
 
Há um eco no teu peito, lamentoso e antigo, refém do teu destino
 
de glória ou de má sorte, a quebrar o silêncio
 
   sagrado das esplendorosas catedrais de vidro e de oiro.
 
Sob as finas rendas de pó, dignamente, deixa repousar
 
o mistério, o desaire e o brilho e prossegue o teu caminho.
 
O sol ainda aqui está
 
a semear campos de claridade no horizonte.
 
Nunca deixou de te moldar ondas de bravura e caravelas no rosto
 
e nem o vento parou de te apontar um caminho novo.
 
 
 
 Fernando Pedrosa
 
 
 
 
 
 
 
 

  
 











 
 

 
 

Fotografia de Fernando Pedrosa


Nota: as imagens foram captadas no Mosteiro de Santa Maria da Vitória - Batalha - Leiria

 
 
 

21/09/2016

 
 
  
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Bastava-nos Amar
 
 
Bastava-nos amar. E não bastava
o mar. E o corpo? O corpo que se enleia?
O vento como um barco: a navegar.
Pelo mar. Por um rio ou uma veia.
 
Bastava-nos ficar. E não bastava
o mar a querer doer em cada ideia.
Já não bastava o olhar. Urgente: amar.
E ficar. E fazermos uma teia.
 
Respirar. Respirar. Até que o mar
pudesse ser amor em maré cheia.
E bastava. Bastava respirar
 
a tua pele molhada de sereia.
Bastava, sim, encher o peito de ar.
Fazer amor contigo sobre a areia.
 
 
Joaquim Pessoa, in "Português Suave"
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Fotografia de Fernando Pedrosa
 
 

17/08/2016

                                                                            










 
 
 
 
 
 








 
 
 
 
 
 
 
 
 
Ode ao Gato
 
 
 
 Tu e eu temos de permeio
a rebeldia que desassossega,
a matéria compulsiva dos sonhos.
Que ninguém nos dome,
que ninguém tente
reduzir-nos ao silêncio branco da cinza,
pois nós temos fôlegos largos
de vento e de névoa
para de novo nos erguermos
e, sobre o desconsolo dos escombros,
formarmos o salto
que leva à glória ou à morte,
conforme a harmonia dos astros
e a regra elementar do destino.
 
 
José Jorge Letria, in "Animália Odes aos Bichos"
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 










Fotografia de Fernando Pedrosa
 
 
 
 
 

31/07/2016

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 















MAR
 
 
Bebo-o a colherinhas de olhos
 
na taça da manhã.
 
E nem ele se esgota,
 
nem eu me sacio.
 
 
Luísa Dacosta, in "A Maresia e o Sargaço dos Dias"
 
 
 
 
 
 

























Fotografia de Fernando Pedrosa
 
 
 
 
 

04/07/2016

 
 
 
 
















FIM
 
 
 
Já não somos os mesmos, sufocámo-nos nas lavaredas de fogo,
ateadas ao sangue que era novo e vibrante.
Deixámos secar os lábios, as flores e os poemas nas dobras dos lençóis,
e a nossa casa foi-nos desabitando por dentro.
Já não somos os mesmos, somos a água que se esgotou.
 
 
 
Fernando Pedrosa
 
 
 
 
 
 













Fotografia de Fernando Pedrosa
 
 

21/06/2016







 














SÃO AS PESSOAS COMO TU
 
 
 
São as pessoas como tu que fazem com que o nada queira dizer-nos algo,
as coisas vulgares se tornem coisas importantes e as preocupações
maiores sejam de facto mais pequenas. São as pessoas como tu que dão
outra dimensão aos dias, transformando a chuva em delirante orvalho e
fazendo do inverno uma estação de rosas rubras.
As pessoas como tu possuem não uma, mas todas as vidas. Pessoas que
amam e se entregam porque amar é também partilhar as mãos e o corpo.
Pessoas que nos escutam e nos beijam e sabem transformar o cansaço
numa esperança aliciante, tocando-nos o rosto com dedos de água pura,
soltando-nos os cabelos com a leveza do pássaro ou a firmeza da flecha.
São as pessoas como tu que nos respiram e nos fazem inspirar com ela o
azul que há no dorso das manhãs, e nos estendem os braços e nos
apertam até sentirmos o coração transformar o peito numa música
infinita. São as pessoas como tu que não nos pedem nada mas têm sempre
tudo para dar, e que fazem de nós nem ícaros nem prisioneiros, mas
homens e mulheres com a estatura da vida, capazes da beleza e da justiça,
do sofrimento e do amor. São as pessoas como tu que, interrogando-nos,
se interrogam, e encontram as respostas para todas as perguntas nos nossos
olhos e no coração. As pessoas que por toda a parte deixam uma
flor para que ela possa levar beleza e ternura a outras mãos. Essas pessoas
que estão sempre ao nosso lado para nos ensinar em todos os momentos,
ou em qualquer momento, a não sentir o medo, a reparar num gesto, a
escutar um violino. São as pessoas como tu que ajudam a transformar o mundo.
 
 
Joaquim Pessoa, in "Ano Comum"




















 
 
Fotografia de Fernando Pedrosa
 
 

08/05/2016


































MOCIDADE
 
 
 
A mocidade esplêndida, vibrante,
Ardente, extraordinária, audaciosa.
Que vê num cardo a folha duma rosa,
Na gota de água o brilho dum diamante;
 
Essa que fez de mim Judeu Errante
Do espírito, a torrente caudalosa,
Dos vendavais irmã tempestuosa,
- Trago-a em mim vermelha, triunfante!
 
No meu sangue rubis correm dispersos:
Chamas subindo ao alto nos meus versos,
Papoilas nos meus lábios a florir!
 
Ama-me doida, estonteadoramente,
O meu Amor! que o coração da gente
É tão pequeno... e a vida, água a fugir...
 
 
Florbela Espanca, in "Charneca em Flor"
 
 



















Fotografia de Fernando Pedrosa