21/09/2016

 
 
  
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Bastava-nos Amar
 
 
Bastava-nos amar. E não bastava
o mar. E o corpo? O corpo que se enleia?
O vento como um barco: a navegar.
Pelo mar. Por um rio ou uma veia.
 
Bastava-nos ficar. E não bastava
o mar a querer doer em cada ideia.
Já não bastava o olhar. Urgente: amar.
E ficar. E fazermos uma teia.
 
Respirar. Respirar. Até que o mar
pudesse ser amor em maré cheia.
E bastava. Bastava respirar
 
a tua pele molhada de sereia.
Bastava, sim, encher o peito de ar.
Fazer amor contigo sobre a areia.
 
 
Joaquim Pessoa, in "Português Suave"
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Fotografia de Fernando Pedrosa
 
 

17/08/2016

                                                                            










 
 
 
 
 
 








 
 
 
 
 
 
 
 
 
Ode ao Gato
 
 
 
 Tu e eu temos de permeio
a rebeldia que desassossega,
a matéria compulsiva dos sonhos.
Que ninguém nos dome,
que ninguém tente
reduzir-nos ao silêncio branco da cinza,
pois nós temos fôlegos largos
de vento e de névoa
para de novo nos erguermos
e, sobre o desconsolo dos escombros,
formarmos o salto
que leva à glória ou à morte,
conforme a harmonia dos astros
e a regra elementar do destino.
 
 
José Jorge Letria, in "Animália Odes aos Bichos"
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 










Fotografia de Fernando Pedrosa
 
 
 
 
 

31/07/2016

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 















MAR
 
 
Bebo-o a colherinhas de olhos
 
na taça da manhã.
 
E nem ele se esgota,
 
nem eu me sacio.
 
 
Luísa Dacosta, in "A Maresia e o Sargaço dos Dias"
 
 
 
 
 
 

























Fotografia de Fernando Pedrosa
 
 
 
 
 

04/07/2016

 
 
 
 
















FIM
 
 
 
Já não somos os mesmos, sufocámo-nos nas lavaredas de fogo,
ateadas ao sangue que era novo e vibrante.
Deixámos secar os lábios, as flores e os poemas nas dobras dos lençóis,
e a nossa casa foi-nos desabitando por dentro.
Já não somos os mesmos, somos a água que se esgotou.
 
 
 
Fernando Pedrosa
 
 
 
 
 
 













Fotografia de Fernando Pedrosa
 
 

21/06/2016







 














SÃO AS PESSOAS COMO TU
 
 
 
São as pessoas como tu que fazem com que o nada queira dizer-nos algo,
as coisas vulgares se tornem coisas importantes e as preocupações
maiores sejam de facto mais pequenas. São as pessoas como tu que dão
outra dimensão aos dias, transformando a chuva em delirante orvalho e
fazendo do inverno uma estação de rosas rubras.
As pessoas como tu possuem não uma, mas todas as vidas. Pessoas que
amam e se entregam porque amar é também partilhar as mãos e o corpo.
Pessoas que nos escutam e nos beijam e sabem transformar o cansaço
numa esperança aliciante, tocando-nos o rosto com dedos de água pura,
soltando-nos os cabelos com a leveza do pássaro ou a firmeza da flecha.
São as pessoas como tu que nos respiram e nos fazem inspirar com ela o
azul que há no dorso das manhãs, e nos estendem os braços e nos
apertam até sentirmos o coração transformar o peito numa música
infinita. São as pessoas como tu que não nos pedem nada mas têm sempre
tudo para dar, e que fazem de nós nem ícaros nem prisioneiros, mas
homens e mulheres com a estatura da vida, capazes da beleza e da justiça,
do sofrimento e do amor. São as pessoas como tu que, interrogando-nos,
se interrogam, e encontram as respostas para todas as perguntas nos nossos
olhos e no coração. As pessoas que por toda a parte deixam uma
flor para que ela possa levar beleza e ternura a outras mãos. Essas pessoas
que estão sempre ao nosso lado para nos ensinar em todos os momentos,
ou em qualquer momento, a não sentir o medo, a reparar num gesto, a
escutar um violino. São as pessoas como tu que ajudam a transformar o mundo.
 
 
Joaquim Pessoa, in "Ano Comum"




















 
 
Fotografia de Fernando Pedrosa
 
 

08/05/2016


































MOCIDADE
 
 
 
A mocidade esplêndida, vibrante,
Ardente, extraordinária, audaciosa.
Que vê num cardo a folha duma rosa,
Na gota de água o brilho dum diamante;
 
Essa que fez de mim Judeu Errante
Do espírito, a torrente caudalosa,
Dos vendavais irmã tempestuosa,
- Trago-a em mim vermelha, triunfante!
 
No meu sangue rubis correm dispersos:
Chamas subindo ao alto nos meus versos,
Papoilas nos meus lábios a florir!
 
Ama-me doida, estonteadoramente,
O meu Amor! que o coração da gente
É tão pequeno... e a vida, água a fugir...
 
 
Florbela Espanca, in "Charneca em Flor"
 
 



















Fotografia de Fernando Pedrosa
 
 
 
 

 
 
 


26/03/2016

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
REZA DE MENINO
 
 
 
Pai, sempre que entras no teu barco, é como se fosses para uma guerra distante,
o meu coração aperta-se e bate com a mesma pressa
à que tenho em te ver voltar.
Junto à Pedra Alta eu espero por ti e rezo ao Senhor Jesus das Chagas,
que seja eu nesse ir e voltar,
o destino dos teus olhos nos meus,
tu minha concha protetora, eu tua estrela-do-mar,
no vencer de todos os medos.
 
 
 
Fernando Pedrosa
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Fotografia de Fernando Pedrosa
 
 


31/01/2016

HOMEM COM PÉROLAS DE ORVALHO






































HOMEM COM PÉROLAS DE ORVALHO
 
 
 
 
Eu acordo as madrugadas orvalhadas de pérolas e na loucura
 
da embriaguez da luz cristalina, tomo-a como vinho doce e desteço
 
 as noites mais escuras - palavras e raízes talhadas no meu rosto

e nas minhas mãos, a golpes de espadas de vidro e todo o universo

se abre em mim e é capa que me cobre e me protege e eu canto,

para chamar os pássaros, o azul do firmamento, o alimento, a frescura

dos rios e os caminhos orlados de amoras silvestres e rosmaninho.

E não quero mais nada para mim, nem a piedade de homens bondosos

tornados deuses, nem todo o oiro que cobre os ossos dos inocentes

atirados ao fundo dos poços sagrados.

Sou apenas um homem com pérolas de orvalho, pastor peregrino

nas várzeas verdes e nos vales em flor e tudo o que possuo a mim  me

basta - o meu rebanho e o meu cajado, com que derrubo as taças

da ira e do fel, a serem o mel do chamamento do meu inocente

cordeiro aos altares da degolação.




Fernando Pedrosa
 
 
 
 
 
 










Fotografia de Fernando Pedrosa







 

19/01/2016















 
 
 
 
 
 
 




















As  Mulheres Que Habitam As Serras


 
 
 
Eu nunca saberei caminhar sobre um chão frio, rude e em brechas,
 
como caminham as mulheres destemidas das serras azuis nuas e frias,
 
com os calcanhares em lavaredas feridos, a serem enxadas e charruas.

Eu habito as estradas e as ruas lisas, pejadas de pálpebras cerradas

e bocas caladas na dor e no desamor que há nas papoilas invisíveis.

Eu nunca saberei desvendar o olhar esfíngico das mulheres que sabem

onde guardar o segredo do tempo e da lonjura do mar, que ao enterrarem

as mãos nas entranhas da terra, trazem a descoberto peixes azuis, tripas

e vísceras, corações de barro tão puro como o oiro.

Eu habito as casas de vidro e a minha vida corre estrangulada entre fios

e ponteiros de relógios, a espetarem-se-me nos olhos como facas ao meu destino.

As mulheres que habitam as serras,  pelas encostas, carregam nos braços os filhos,

os mortos, as árvores, os frutos, os bichos e sabem desviar-se dos precipícios,

das armadilhas e dos venenos e vão pelos carreiros alumiados dos mortos antigos.

Eu nunca saberei como chegar ao cume das serras, como sabem as mulheres

que as habitam, receio não saber como se caminha pelos carreiros tortos da vida

e não tenha eu a dignidade de alumiado ser pela Luz de uma morte antiga.

As mulheres que habitam as serras azuis nuas e frias, estão mais perto da lua,

do sol, do mar, dos mortos, da vida.




Fernando Pedrosa
 
 

 
























Fotografia de Fernando Pedrosa