24/08/2015






      







                                                                                   
     
                                                                                 





A vida é bela
 
 
 
Há um deus antigo que vive
dentro da madeira velha 
da minha porta.
Quando o ruído do mundo é nefasto,
esse deus antigo e protetor,
estanca todos os poros
da madeira velha da minha porta
com cápsulas de amor e de silêncio.
De manhã, quando acordo,
pinta-me sempre um arco-íris
na madeira velha da minha porta,
e eu saio por ela com um sorriso
de mil e uma cores,
e a ela volto sempre, porque é bela
a minha porta e a vida
aquém e além dela.
 
 
 
Fernando Pedrosa
 
 
 

 



                                                                      







                                 







                                                                               
                







 






 
 
 
 
 
 
Fotografia de Fernando Pedrosa  
 
 
 

08/08/2015

                                                                      




















Viagem
 
 
É o vento que me leva.
O vento lusitano.
É este sopro humano
Universal
Que enfuna a inquietação de Portugal.
É esta fúria de loucura mansa
Que tudo alcança sem alcançar.
Que vai de céu em céu,
De mar em mar,
Até nunca chegar.
E esta tentação de me encontrar
Mais rico de amargura
Nas pausas da ventura
De me encontrar...
 
 
Miguel Torga, in "Diário XII
 
 
 

 
 

        














                                                                                
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Fotografia de Fernando Pedrosa
 
 

06/06/2015

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
searas de pedra
 
 
 
sei do temor que se sente
quando nas mãos da gente
o vermelho incendiado
de uma pétala de papoila
é beleza que não dura
 sei da frescura do sangue
a secar lentamente
sobre a frieza
das searas de pedra
sei da morte prematura
de tudo quanto se arranca
à raiz do coração
 
 
Fernando Pedrosa
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Fotografia de Fernando Pedrosa
 
 
 

24/05/2015













Quando aqui não estás
 
 
 
Quando aqui não estás
o que nos rodeou põe-se a morrer
 
a janela que abre para o mar
continua fechada só nos sonhos
me ergo
abro-a
deixo a frescura e a força da manhã
escorrerem pelos dedos prisioneiros
da tristeza
acordo
para a cegante claridade das ondas
 
um rosto desenvolve-se nítido
além
rasando o sal da imensa ausência
uma voz
 
quero morrer
com uma overdose de beleza
 
e num sussurro o corpo apaziguado
perscruta esse coração
esse
solitário caçador
 
 
Al Berto
 
















 
 
Fotografia de Fernando Pedrosa
 


18/03/2015

 
 
 
 
 
 





 


 
 
 
 
 
O homem não sabe mais que os outros animais; sabe menos.
 
Eles sabem o que precisam saber. Nós não.
 
 
 
Textos Filosóficos - Fernando Pessoa
 
 
 
 


 

 
 
 
 














 
 
 
 






 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 
 




 
 
 
 
 

 
 
 
Fotografia de Fernando Pedrosa
 
 
 

 
 

01/03/2015

Quando o amor morrer



















Quando o amor morrer



Quando o amor morrer dentro de ti,
Caminha para o alto onde haja espaço,
E com o silêncio outrora pressentido
Molda em duas colunas os teus braços.
Relembra a confusão dos pensamentos,
E neles ateia o fogo adormecido
Que uma vez, sonho de amor, teu peito ferido
Espalhou generoso aos quatro ventos.
Aos que passarem dá-lhes o abrigo
E o noturno calor que se debruça
Sobre as faces brilhantes de soluços.
E se ninguém vier, ergue o sudário
Que mil saudosas lágrimas velaram;
Desfralda na tua alma o inventário
Do templo onde a vida ora de bruços,
A Deus e aos sonhos que gelaram.



Ruy Cinatti





















Fotografia de Fernando Pedrosa





21/02/2015

 
 
 
 
 
 












Palavrador
 
 
 
O papel,
antes do poema,
é um chão depois da chuva.
 
O idioma do grão
lavra a caligrafia do pão.
 
 
Mia Couto, in "Tradutor de Chuvas"
 
 
 














 
 
Fotografia de Fernando Pedrosa
 
 


06/02/2015

Dentro e sobre os homens, José Luís Peixoto

 
 
 
 
 
 
 

 
 
 





« Dentro e sobre os homens, somos o medo. São as nossas mãos que determinam a fúria da água,
que fazem marchar exércitos, que plantam cardos debaixo da pele.»
 
 
José Luís Peixoto
 

 
 











 

 
 
Guilherme Gomes emprestou a voz

 
 

 
 
Fotografia de Fernando Pedrosa