07/09/2012


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FUNDO DO MAR
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No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas são animais
E os animais são flores.
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Mundo silencioso que não atinge
A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
No desalinho
Dos seus mil braços,
Uma flor dança,
Sem ruído vibram os espaços.
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Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.
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Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.

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Sophia de Mello Breyner Andresen
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Fts: Fernando Pedrosa
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24/06/2012

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Lembrança
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Só quero lembrar
se o tempo for todo meu.
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Só anseio lembrança
se não houver passado.
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Bruma e espuma,
apagam o tempo em que não amei.
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E eu amei
para ser tudo, todos, sempre.
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Para te visitar
esquecerei a terra
e apagarei estrelas.
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E irei pelos teus olhos,
até o mundo voltar a ter princípio.
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Sou eu, dirás.
E o tempo será lembrado.
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Mia Couto, in "Tradutor de Chuvas"
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A todos, o meu muito obrigado por tudo.
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Um obrigado especial, à Manuela Baptista, à Rufina Mesquita
e ao Paulo Intemporal,
amigos de sempre e para sempre, a quem, hoje, lhes é dedicada
esta humilde página.
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Não é um adeus!!!
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É uma rajada de vento que me empurra para dentro de mim.
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Abraço- Vos, a todos!
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Fernando
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16/06/2012

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Pensamos de Mais e Sentimos de Menos
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Queremos todos ajudar-nos uns aos outros. Os seres humanos
são assim. Queremos viver a felicidade dos outros e não a sua
infelicidade. Não queremos odiar nem desprezar ninguém.
Neste mundo há lugar para toda a gente. E a boa terra é rica e
pode prover às necessidades de todos.
O caminho da vida pode ser livre e belo, mas desviámo-nos do
caminho. A cupidez envenenou a alma humana, ergueu no
mundo barreiras de ódio, fez-nos marchar a passo de ganso
para a desgraça e a carnificina. Descobrimos a velocidade, mas
prendemo-nos demasiado a ela. A máquina que produz a
abundância empobreceu-nos. A nossa ciência tornou-nos
cínicos; a nossa inteligência, cruéis e impiedosos. Pensamos
de mais e sentimos de menos. Precisamos mais de humanidade
que de máquinas. Se temos necessidade de inteligência, temos
ainda mais necessidade de bondade e doçura. Sem estas
qualidades, a vida será violenta e tudo estará perdido.
O avião e a rádio aproximaram-nos. A própria natureza destes
inventos é um apelo à fraternidade universal, à união de todos.
Neste momento, a minha voz alcança milhões de pessoas
através do mundo, milhões de homens sem esperança, de
mulheres, de crianças, vítimas de um sistema que leva os homens
a torturar e a prender pessoas inocentes. Àqueles que podem
ouvir-me, digo: Não desesperem. A desgraça que nos oprime
não provém senão da cupidez, do azedume dos homens que têm
receio de ver a humanidade progredir. O ódio dos homens
há-de passar, e os ditadores morrem, e o poder que tiraram ao
povo, o povo retomá-lo-à. Enquanto os homens morrerem, a
liberdade não perecerá.
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Charles Chaplin, in "Discurso final de «O Grande Ditador»"
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Fotografia: Fernando
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10/06/2012

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A PEDRA SÓ É DURA E DURÁVEL
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EM CONFRONTO COM OS SERES
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HUMANOS, QUE DEVERÃO TER
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VISTO NELA O CONTRÁRIO
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DA FRAGILIDADE DA CARNE
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José Bragança de Miranda
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Fotografia: Walter
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15/05/2012

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Dou dois passos
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ele sabe a sombra onde me colo
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o riso que me solta o sapato que rói
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educá-lo para quê
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quero-o terno mimado louco danado de amor por mim
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o meu cão
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Manuela Baptista
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Fotografia: Walter
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06/05/2012

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Palavras para a Minha Mãe
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mãe, tenho pena. esperei sempre que entendesses
as palavras que nunca disse e os gestos que nunca fiz.
sei hoje que apenas esperei, mãe, e esperar não é o suficiente.
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pelas palavras que nunca disse, pelos gestos que me pediste
tanto e eu nunca fui capaz de fazer, quero pedir-te
desculpa, mãe, e sei que pedir desculpa não é suficiente.
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às vezes, quero dizer-te tantas coisas que não consigo,
a fotografia em que estou ao teu colo é a fotografia
mais bonita que tenho, gosto de quando estás feliz.
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lê isto: mãe, amo-te.
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eu sei e tu sabes que poderei sempre fingir que não
escrevi estas palavras, sim, mãe, hei-de fingir que
não escrevi estas palavras, e tu hás-de fingir que não
as leste, somos assim, mãe, mas eu sei e tu sabes.
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Jorge Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão"
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Fotografia: Walter
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03/05/2012


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DORMIR UM POUCO
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Dormir um pouco - um minuto,
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um século. Acordar
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na crista
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duma onda, ser
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o lastro de espuma
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que há no sono das algas. Ou
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ser apenas
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a maré, que sempre
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volta
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para dizer: eu não morri, eu sou
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a borboleta
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do vento, a flor
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incandescente destas águas.
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Albano Martins
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Fotografia: Walter
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29/03/2012

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PORTUGAL, PORQUE SIM
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Podia chamar-te pai, asa de fogo, planta agreste,
alpendre aberto ao feitiço das estrelas.
Podia aninhar-me no casulo do teu abraço
e adormecer com o mistério que alimenta as tuas lendas.
Podia recordar os nomes dos rios e das serras
e das linhas secundárias que cruzam vales e montanhas.
Podia perguntar pelos teus filhos
esquecidos há muito nas errâncias deste mundo.
Podia querer interpretar a tua melancolia
como um sinal de saudade da grandeza perdida.
Podia reabrir, em página incerta, os teus livros raros,
os dos poetas que engrandeceram a título póstumo,
como os heróis, em pátria de carpideiras
e de oficiantes da mais daninha e estranhada inveja.
Podia entrar nas tuas casinhas baixas,
as de granito e as pintadas com a mansa alvura da cal.
Podia afagar-te as barbas brancas
que se tornaram salgadas no fragor das batalhas.
Podia desenterrar os teus mortos
só para saber que sonhos traídos os levaram à cova.
Podia desmascarar os vendilhões que falam em teu nome
como se falassem de negócios reles numa banca de feira.
Podia perguntar-te porque atravessas cabisbaixo
os largos das aldeias desertas e queres saber
o paradeiro dos teus filhos silenciosos e distantes,
daqueles que tomaram outros rumos
com a dor da tua ausência a ferir-lhes o peito.
Podia deitar-me ao teu colo
como se me deitasse na cama de urze
à beira dos promontórios que vigiam as fúrias do mar.
Podia chorar no teu ombro cansado todas as desditas
que foste obrigado a consentir e a calar.
Podia contar aos meus netos os feitos
do Gama, de Magalhães e de Cabral
e desenhar um mapa de glórias navegantes
só para eles saberem que um dia
usaste a efémera coroa de algas dos reinos do mar.
Podia pedir-te e dar-te contas
de tudo aquilo que sonhámos e não alcançámos.
Podia fazer isso e muito mais,
mas prefiro vislumbrar na tristeza dos teus olhos
a ternura com que segues o rasto das aves e das estrelas
e depois abraçar-te e dizer-te: meu querido Portugal,
serás, até ao fim,  a luz que não se apaga nem se rende
quando sonhamos com tudo aquilo que ainda te falta ser.
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José Jorge Letria
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Fts: Walter
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10/02/2012

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JARDIM ZOOLÓGICO
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O meu nome é Pedro e tenho oito anos. Estou sentado no segundo degrau das escadas do meu prédio, a escrever num caderno com linhas. A minha professora disse-me para escrever durante as férias tudo o que fosse acontecendo à minha volta e é isso mesmo que eu faço. Olho, oiço e escrevo. O meu pai é que não gosta lá muito da ideia. Este miúdo devia é ir jogar à bola com os outros miúdos, a ver se aprende a ser homenzinho, em vez de se fechar no quarto a escrevinhar horas a fio naquele caderno, diz ele. E nessas alturas a minha mãe fica sempre com cara de zanga e as sobrancelhas assim todas esticadas para cima. Diz ela, deixa-o em paz, Tó-Zé, não vês que o nosso filho é dado aos estudos, assim pelo menos pode ser que saia menos burro do que o pai e sempre nos poupa o dinheiro que os outros miúdos gastam por causa dos vidros partidos. Depois continuam a discutir por outras razões lá deles e eu já não tenho paciência para os ouvir.

Vou buscar uma caneta à sala, onde a minha irmã mais nova e o meu avô continuam pregados à TV, a ver um programa qualquer com muitas bailarinas e um apresentador de sorriso estúpido que faz uma coisa esquisita com a voz. Saio para o quintal com o meu caderno e debaixo da árvore dos maracujás, que a minha avó plantou há muito tempo depois de uma viagem ao Brasil, mas que nunca deu frutos e se calhar não é uma árvore dos maracujás coisa nenhuma, eu cá acho que é uma árvore rara da Amazónia que a minha avó trouxe numa mala muito grande, às escondidas, sento-me debaixo dessa árvore, rara ou dos maracujás, não interessa, e fico na sombra a olhar para as páginas brancas do caderno de linhas e manchas de luz agitam-se sobre o papel. É então que me ponho a recordar tudo o que acontece dentro da nossa casa e depois transformo essas conversas, esses gestos, esses barulhos, em palavras que desenho aqui muito devagarinho, arredondando a letra como pede a professora.

Agora o caderno está quase a chegar ao fim e as férias também, o pai prometeu que ia connosco ao Jardim Zoológico esta tarde, mas a minha irmã preferiu ficar a ver desenhos animados ao lado do meu avô, que dorme e se baba no sofá, com a placa dos dentes fora do sítio, o pai prometeu-me e eu quero muito desenhar um elefante, um crocodilo, uma cobra venenosa e um leão no meu caderno, mas o pai nunca mais desce, está fechado na cozinha há três horas com a minha mãe e eu olho o postal que um dia a minha tia mandou de França, é um quadro que está no Museu do Louvre, acho que se escreve assim, uma jangada cheia de pessoas aflitas que querem chamar a atenção de um barco ao longe mas o barco não vê essas pessoas, é assim a nossa família, disse-me a tia, e agora vejo a minha mãe ao cimo das escadas, com os olhos vermelhos, o pai saiu pelas traseiras e eu já sei que não vai haver Jardim Zoológico para ninguém.
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José Mário Silva, in "Efeito Borboleta e Outras Histórias"
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Fts: Walter
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