08/07/2014



 
 
 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
........................................  A MINHA VARANDA
                                        
 
 
 
........................................  A minha varanda                                      
........................................  vive do lado de fora
........................................  do tempo
 
........................................  É um navio atracado
........................................  à pele enrugada
........................................  da memória
 
........................................  Às vezes
........................................  o navio desamarra-se
........................................  e é um astro na órbita dos pinhais
 
........................................  É um cais de antigos marinheiros
........................................  uma saudade que não finda
........................................  uma boca salgada de beijos
 
........................................  A minha varanda
........................................  vive do lado de fora
........................................  do ninho
 
........................................  É um terreiro de gritos
........................................  de gaivotas e de meninos
........................................  a derrubarem aviões
 
........................................  Às vezes
........................................  no agigantar do vento e da vaga
........................................  todas as luzes se apagam
 
........................................  Do lado de dentro do ninho
........................................  o silêncio dos retratos e do vinho
........................................  quando o mar já não é um destino
 
 
 
 
........................................  Fernando Pedrosa
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 





Fotografia de Fernando Pedrosa
 
 










 
   

07/06/2014







 
 
 
 
 
 







Até Amanhã
 
 
 
Sei agora como nasceu a alegria,
como nasce o vento entre barcos de papel,
como nasce a água ou o amor
quando a juventude não é uma lágrima.
 
É primeiro só um rumor de espuma
à roda do corpo que desperta,
sílaba espessa, beijo acumulado,
amanhecer de pássaros no sangue.
 
É subitamente um grito,
um grito apertado nos dentes,
galope de cavalos num horizonte
onde o mar é diurno e sem palavras.
 
Falei de tudo quanto amei.
De coisas que te dou
para que tu as ames comigo:
a juventude, o vento e as areias.
 
 
Eugénio de Andrade, in "Até Amanhã"

 
 









Ao jovem, que acedeu gentilmente colaborar nesta página, emprestando o seu rosto para ilustrar um poema de Eugénio de Andrade, o meu muito obrigado.


 
 


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Fotografia de Fernando Pedrosa
 
 
 
 
 
 
 

22/05/2014

Ne me quitte pas

 
 
 
 






 
 
 
 
Recordando Jacques Brel, cantando com o coração em chamas
 








 
 
 
Ne me quitte pas
 
 
 
 
 
 
Fotografia de Fernando Pedrosa
 
 
 

19/04/2014






 
 
 
 
Faz-se Luz
 
 
 
Faz-se luz pelo processo
de eliminação das sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas no próprio seio dela
intensamente amantes   loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem
 
Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina   realmente   os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos   e na boca
 
 
 
Mário Cesariny, in "Pena Capital"
 
 
 















 
Fotografia de Fernando Pedrosa
 
 
 
 


23/07/2013

OS DIAS DE VERÃO

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OS DIAS DE VERÃO
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Os dias de verão vastos como um reino
Cintilantes de areia e maré lisa
Os quartos apuram o seu fresco de penumbra
Irmão do lírio e da concha é nosso corpo
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Tempo é de repouso e festa
O instante é completo como um fruto
Irmão do universo é nosso corpo
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O destino torna-se próximo e legível
Enquanto no terraço fitamos o alto enigma familiar dos astros
Que em sua imóvel mobilidade nos conduzem
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Como se em tudo aflorasse eternidade
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Justa é a forma do nosso corpo
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Sophia de Mello Breyner Andresen
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Fotografia de Fernando Pedrosa


 
 
 
 
 

14/05/2013

Secretos Jardins da Alma

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Abotoa-se-me ao peito o carmim de uns lábios,
fechados em aveludados e inconfessáveis segredos.
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Fotografia e texto:  Fernando Pedrosa
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13/11/2012

 
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Novíssimo Testamento
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Não fui eu que envelheci, juro,
foi a esperança que apodreceu em mim,
corpo desenterrado à espera da mortalha da lua
como num macilento soneto ultra-romântico.
A quem devo agradecer o bem e o mal incomensuráveis
desta vocação versejante que me fulmina?
A ninguém, talvez. Poderei agradecê-la à terra
ou à aflição martirizada de meu pai,
tombado de borco sobre os escombros da vida
quando tinha a idade que eu tenho
ao escrever estes versos destroçados por dentro,
fragilíssimos cristais do infortúnio da noite.
E as palavras de onde me chegam, quantas são,
com que intenção me visitam, com que
propósito me põem na boca tudo aquilo
que eu, por pudor, jurei nunca dizer?
Desconfiem dos poetas púdicos, sempre,
pois foram os únicos que saborearam
a nudez inclemente da morte e nunca a confessaram.
Eu não sei o que é o cansaço, nunca o soube.
Nem morto estarei cansado, porque há
um ódio surdo e lento que maquina em mim
os seus artifícios e engodos e me ensina
a não dar tréguas, a não fazer reféns.
Eu cansei-me de simular a bondade,
igual à dos santos de barro dos altares da pobreza.
O céu em que creio é um charco embaciado
onde as sombras atraiçoam outras sombras
em troca de uma vaga promessa de luz, enganadora.
Eu conheço canalhas que têm nos olhos
o remorso infinito de todas as mortes de Cristo
e que fingem pensar na aflição dos outros
enquanto gravam na pele a palavra poder.
Como posso eu acreditar em quem
não sabe, não pode e não quer acreditar em nada?
Somos estúpidamente mortais, desde sempre,
e imaginamo-nos artífices de eternidades,
ensinando aos velhos o caminho do abismo
e aos outros o que sobra da ciência dos livros.
Eu nunca hei-de descer à terra, prometo,
porque tenho medo de sujar o bibe
e de sentir os dedos nodosos da minha mãe
a deixarem-me nas pernas grossos vergões de revolta.
A minha cólera é um incêndio de Verão:
devasta, enegrece e mata, e depois
vai-se, inocente, como se nada tivesse acontecido.
Hei-de esconder-me no vento do deserto, um dia,
entre as cobras e os escaravelhos, meus irmãos,
espreitando sem pressa a solidão nocturna das raposas.
Quando quiserem saber de mim, não hesitem,
abram o livro na página que eu nunca escreverei. 

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José Jorge Letria
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Fts: Fernando Pedrosa
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17/10/2012

Passos básicos de Salsa Cubana para dançarinos trapalhões

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Viu como é, Senhor Ministro?
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Não custa aprender com quem sabe...!
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É tão fácil, quando se escuta o ritmo,
com os ouvidos do coração.
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Assim: um dois três, cinco seis sete, um dois três, cinco seis sete...
um dois três, um dois três...
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Fts: Fernando Pedrosa
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05/10/2012

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Era uma vez um país...
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Portugal, 5 de Outubro de 2012
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Fts: Fernando Pedrosa
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