29/09/2012

RADICAL MOMENT

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Pestinha, então fica combinado assim: tu dizes à tua mãe que vais a um baptizado,
à minha, digo que vou a um casamento. Que tenham paciência, mal terminem as
cerimónias, estes seus adoráveis filhos correrão para visitá-las. É melhor assim,
temos que as poupar de ralações, de ais e de uis, de rezas e ladainhas o dia inteiro.
Nós, poupados seremos a mais um sermão e missa cantada.
Mas toma atenção: se regressarmos a mancar de uma perna, com a testa cheia de
de nódoas negras, ou mesmo com os dentes partidos, à tua mãe vais dizer, que te
encandeaste com a luz das velas, que ficaste todo abolachado contra o altar e um
santo te caiu em cima.
Eu ainda não pensei bem o que dizer à minha, tem que ser uma coisa bem bolada,
ela é muito desconfiada, na última que lhe contei não acreditou e mandou-me ir
"ver se chove na Barosa".
Talvez lhe diga que me enrodilhei na cauda do véu da noiva e enrodilhados os  dois,
desabamos pelas escadarias da igreja... isto mais coisa menos coisa!
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Para já ficamos assim!
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Ah p'lo sim p'lo não, leva uns pensos rápidos, um frasquinho de betadine
e o telemóvel, ok?
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Não vamos ter medo das quedas, havemos sempre de nos levantar...
medo devemos ter, de alguma coisa não aprendermos com elas.
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Do amigo, Nandinho
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Fts: Fernando Pedrosa
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18/09/2012


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OUVISTE BEM,???

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Fts: Fernando Pedrosa
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07/09/2012


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FUNDO DO MAR
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No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas são animais
E os animais são flores.
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Mundo silencioso que não atinge
A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
No desalinho
Dos seus mil braços,
Uma flor dança,
Sem ruído vibram os espaços.
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Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.
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Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.

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Sophia de Mello Breyner Andresen
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Fts: Fernando Pedrosa
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24/06/2012

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Lembrança
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Só quero lembrar
se o tempo for todo meu.
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Só anseio lembrança
se não houver passado.
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Bruma e espuma,
apagam o tempo em que não amei.
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E eu amei
para ser tudo, todos, sempre.
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Para te visitar
esquecerei a terra
e apagarei estrelas.
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E irei pelos teus olhos,
até o mundo voltar a ter princípio.
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Sou eu, dirás.
E o tempo será lembrado.
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Mia Couto, in "Tradutor de Chuvas"
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A todos, o meu muito obrigado por tudo.
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Um obrigado especial, à Manuela Baptista, à Rufina Mesquita
e ao Paulo Intemporal,
amigos de sempre e para sempre, a quem, hoje, lhes é dedicada
esta humilde página.
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Não é um adeus!!!
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É uma rajada de vento que me empurra para dentro de mim.
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Abraço- Vos, a todos!
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Fernando
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16/06/2012

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Pensamos de Mais e Sentimos de Menos
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Queremos todos ajudar-nos uns aos outros. Os seres humanos
são assim. Queremos viver a felicidade dos outros e não a sua
infelicidade. Não queremos odiar nem desprezar ninguém.
Neste mundo há lugar para toda a gente. E a boa terra é rica e
pode prover às necessidades de todos.
O caminho da vida pode ser livre e belo, mas desviámo-nos do
caminho. A cupidez envenenou a alma humana, ergueu no
mundo barreiras de ódio, fez-nos marchar a passo de ganso
para a desgraça e a carnificina. Descobrimos a velocidade, mas
prendemo-nos demasiado a ela. A máquina que produz a
abundância empobreceu-nos. A nossa ciência tornou-nos
cínicos; a nossa inteligência, cruéis e impiedosos. Pensamos
de mais e sentimos de menos. Precisamos mais de humanidade
que de máquinas. Se temos necessidade de inteligência, temos
ainda mais necessidade de bondade e doçura. Sem estas
qualidades, a vida será violenta e tudo estará perdido.
O avião e a rádio aproximaram-nos. A própria natureza destes
inventos é um apelo à fraternidade universal, à união de todos.
Neste momento, a minha voz alcança milhões de pessoas
através do mundo, milhões de homens sem esperança, de
mulheres, de crianças, vítimas de um sistema que leva os homens
a torturar e a prender pessoas inocentes. Àqueles que podem
ouvir-me, digo: Não desesperem. A desgraça que nos oprime
não provém senão da cupidez, do azedume dos homens que têm
receio de ver a humanidade progredir. O ódio dos homens
há-de passar, e os ditadores morrem, e o poder que tiraram ao
povo, o povo retomá-lo-à. Enquanto os homens morrerem, a
liberdade não perecerá.
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Charles Chaplin, in "Discurso final de «O Grande Ditador»"
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Fotografia: Fernando
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10/06/2012

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A PEDRA SÓ É DURA E DURÁVEL
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EM CONFRONTO COM OS SERES
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HUMANOS, QUE DEVERÃO TER
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VISTO NELA O CONTRÁRIO
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DA FRAGILIDADE DA CARNE
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José Bragança de Miranda
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Fotografia: Walter
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15/05/2012

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Dou dois passos
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ele sabe a sombra onde me colo
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o riso que me solta o sapato que rói
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educá-lo para quê
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quero-o terno mimado louco danado de amor por mim
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o meu cão
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Manuela Baptista
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Fotografia: Walter
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06/05/2012

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Palavras para a Minha Mãe
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mãe, tenho pena. esperei sempre que entendesses
as palavras que nunca disse e os gestos que nunca fiz.
sei hoje que apenas esperei, mãe, e esperar não é o suficiente.
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pelas palavras que nunca disse, pelos gestos que me pediste
tanto e eu nunca fui capaz de fazer, quero pedir-te
desculpa, mãe, e sei que pedir desculpa não é suficiente.
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às vezes, quero dizer-te tantas coisas que não consigo,
a fotografia em que estou ao teu colo é a fotografia
mais bonita que tenho, gosto de quando estás feliz.
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lê isto: mãe, amo-te.
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eu sei e tu sabes que poderei sempre fingir que não
escrevi estas palavras, sim, mãe, hei-de fingir que
não escrevi estas palavras, e tu hás-de fingir que não
as leste, somos assim, mãe, mas eu sei e tu sabes.
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Jorge Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão"
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Fotografia: Walter
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03/05/2012


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DORMIR UM POUCO
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Dormir um pouco - um minuto,
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um século. Acordar
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na crista
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duma onda, ser
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o lastro de espuma
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que há no sono das algas. Ou
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ser apenas
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a maré, que sempre
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volta
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para dizer: eu não morri, eu sou
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a borboleta
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do vento, a flor
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incandescente destas águas.
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Albano Martins
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Fotografia: Walter
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