05/06/2010

Mãe

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Mãe!
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Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei!
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Traze tinta encarnada para escrever essas coisas! Tinta cor de sangue, sangue!
verdadeiro, encarnado!
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Mãe! Passa a tua mão pela minha casa!
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Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens! Eu vou
viajar. Tenho sede! Eu prometo saber viajar.
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Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um.
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Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me a teu lado.
Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei, tão parecidas
com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.
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Mãe! Ata as tuas mãos às minhas e dá um nó cego muito apertado! Eu quero saber
qualquer coisa da nossa casa. Como a mesa. Eu também quero ter um feitio, um feitio
que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa.
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Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça!
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Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!
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Almada Negreiros
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in Rosa do Mundo
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fts: Walter
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A minha Mãe é assim...
creio que as vossas também assim o sejam,
exactamente como esta concha.
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. À minha e às vossas Mães .
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28/05/2010

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Toma-me ó noite em teus jardins suspensos
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Em teus páteos de luar e de silêncio
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Em teus adros de vento e de vazio.
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Sophia de Mello Breyner Andresen
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De mim para mim...
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este voo solitário, estes páteos de silêncio.
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fotos:Walter
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22/05/2010

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Des.laço[-me] no [Re]pouso do Sudário
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As horas edificaram os dias em que a dor se apartou do horizonte.
Respiro profundamente em lufadas de outrora e volto a ser feliz.
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As asas são agora de pássaro esvoaçante em céu longínquo e remoto.
Vogalizo o silêncio em grito sibilante
nas consoantes que formam palavras em rima de auxílio.
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O mundo é de nuvens onde a alma se sustenta avidamente.
O sol exalta o corpo arrefecido em maré baixa
e renasço para a vida que presenteia a temporada da efémera existência.
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Sinto[-a] de lés a lés e arredo o sofrimento que porfiei sem desígnio.
Algures, a esperança em sílabas, musicaliza o movimento ritmado do corpo,
em tom de espectativa constante, teimosamente presente.
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. Paulo Intemporal .
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Num dia muito especial, para um amigo muito especial.
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22 de Maio de 2010
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Fotos: Walter
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14/05/2010

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«...é moço! nem lembro mais que sou ainda um menino... a vida me envelheceu para lá da conta...!»
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A. Carneiro - (Paçoquinha)
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Rio de Janeiro, julho de 1997
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Gouache s/papel - 1997 - "série muros" - autor: Walter
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Criança
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Cabecinha boa de menino triste,
de menino triste que sofre sozinho,
que sozinho sofre, - e resiste.
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Cabecinha boa de menino ausente,
que de sofrer tanto se fez pensativo,
e não sabe mais o que sente...
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Cabecinha boa de menino mudo,
que não teve nada, que não pediu nada,
pelo medo de perder tudo.
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Cabecinha boa de menino santo
que do alto se inclina sobre a água do mundo
para mirar seu desencanto.
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Para ver passar numa onda lenta e fria
a estrela perdida da felicidade
que soube não possuiria.
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Cecília Meireles, in "Viagem"
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Gouache s/papel - 1997 - "série muros" - autor: Walter
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Gouache s/papel - 1993 - autor: Walter
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Em leito de terra dourada me deito
O cantar do frio vento me embala
Um manto de estrelas me aquece
Adormeço...
Acreditem ou não... também sonho!
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Walter
14 de Julho de 1997
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09/05/2010

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. óleo s/tela - título: «e eram tantas as almas em debandada...» - autor: Walter
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Tal a vida
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Em declive trepamos pela nuvem
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dos dias - em declive circundamos
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obscuros cristais
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transportados no sangue - e somos e
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levantamos
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as cores primitivas da fonte a luz
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que resvala corpo a corpo
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a semente sazonada de quem roubou
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o fogo - em declive canto
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a ternura diluída a luz reflectida
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neste muro onde vejo
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a secreção da fala onde ouço
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um caminho de metáforas: tal
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a vida -
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. . . . . Casimiro de Brito, in "Negação da Morte"
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03/05/2010

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Vida Sempre
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Entre a vida e a morte há apenas
o simples fenómeno
de uma subtil transformação. A morte
não é morte da vida.
A morte não é inação, inutilidade.
A morte é apenas a face obscura,
mínima, em gestação
de uma viagem que não cessa de ser. Aventura
prolongada
desde o porão do tempo. Projectando-se
nas naves inconcebíveis do futuro.
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A morte não é morte da vida: apenas
novas formas de vida. Nova
utilidade. Outro papel a desempenhar
no palco velocíssimo do mundo. Novo ser-se (comércio
do pó) e não se pertencer.
Nova claridade, respiração, naufrágio
na máquina incomparável do universo.
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Casimiro de Brito, in "Solidão Imperfeita"
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Fotos:Walter
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30/04/2010

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Liberdade
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Aqui nesta praia onde
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Não há nenhum vestígio de impureza,
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Aqui onde há somente
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Ondas tombando ininterruptamente,
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Puro espaço e lúcida unidade,
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Aqui o tempo apaixonadamente
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Encontra a própria liberdade.
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Sophia de Mello Breyner Andresene
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Fotos: Walter
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Sesimbra, Abril de 2010
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18/04/2010

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Olhando o mar, sonho sem ter de quê
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Olhando o mar, sonho sem ter de quê.
Nada no mar, salvo o ser mar, se vê.
Mas de se nada ver quanto a alma sonha!
De que me servem a verdade e a fé?
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Ver claro! Quantos, que fatais erramos,
Em ruas ou em estradas ou sob ramos,
Temos esta certeza e sempre e em tudo
Sonhamos e sonhamos e sonhamos.
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As árvores longíquas da floresta
Parecem, por longíquas, 'star em festa.
Quanto acontece porque não se vê!
Mas do que há pouco ou não há o mesmo resta.
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Se tive amores? Já não sei se os tive.
Quem ontem fui já hoje em mim não vive.
Bebe, que tudo é líquido e embriaga,
E a vida morre enquanto o ser revive.
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Colhes rosas? Que colhes, se hão-de ser
Motivos coloridos de morrer?
Mas colhe rosas. Porque não colhê-las
Se te agrada e tudo é deixar de o haver?
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. Fernando Pessoa .
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Amigos: Até já...!
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Fotos: Walter
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