29/05/2011

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" Se a nossa vida é provisória, que seja linda e louca a nossa história, pois o valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem.
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Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis."
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Fernando Pessoa
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" E a minha alma alegra-se com o seu sorriso, um sorriso amplo e humano,
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como um aplauso de uma multidão"
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Fernando Pessoa
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Fts: Walter
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À incomparável Reganilda - um sorriso do tamanho do mundo
e que hoje me encantou
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Obrigado, Rega!
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23/05/2011

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Bebido o Luar
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Bebido o luar, ébrios de horizontes,
Julgamos que viver era abraçar
O rumor dos pinhais, o azul dos montes
E todos os jardins verdes do mar.
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Mas solitários somos e passamos,
Não são nossos os frutos e as flores,
O céu e o mar apagam-se exteriores
E tornam-se os fantasmas que sonhamos.
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Por que jardins que nós não colheremos,
Límpidos nas auroras a nascer,
Por que o céu e o mar se não seremos
Nunca os deuses capazes de os viver.
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Sophia de Mello Breyner Andresen
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Fts : Walter
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15/05/2011

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EU FALO DAS CASAS E DOS HOMENS
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Eu falo das casas e dos homens,
dos vivos e dos mortos:
do que passa e não volta nunca mais...
Não me venham dizer que estava materialmente
previsto,
ah, não me venham com teorias!
Eu vejo a desolação e a fome,
as angústias sem nome,
os pavores marcados para sempre nas faces trágicas
das vítimas.
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Eu sei que vejo, sei que imagino apenas uma ínfima,
uma insignificante parcela da tragédia.
Eu, se visse, não acreditava.
Se visse, dava em louco ou em profeta,
dava em chefe de bandidos, em salteador de estrada,
- mas não acreditava!
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Olho os homens, as casas e os bichos.
Olho num pasmo sem limites,
e fico sem palavras,
na dor de serem homens que fizeram tudo isto:
esta pasta ensanguentada a que reduziram a terra inteira,
esta lama de sangue e alma,
de coisa a ser,
e pergunto numa angústia se ainda haverá alguma esperança,
se o ódio sequer servirá para alguma coisa...
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Deixai-me chorar - e chorai!
As lágrimas lavarão ao menos a vergonha de estarmos vivos,
de termos sancionado com o nosso silêncio o crime feito
instituição
e enquanto choramos talvez julguemos nosso o drama,
por momentos será nosso um pouco do sofrimento alheio,
por um segundo seremos os mortos e os torturados,
os aleijados para toda a vida, os loucos e os encarcerados,
seremos a terra podre de tanto cadáver,
seremos o sangue das árvores,
o ventre doloroso das casas saqueadas,
- sim, por um momento seremos a dor de tudo isto...
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Eu não sei porque me caem as lágrimas,
porque tremo e que arrepio corre dentro de mim,
eu que não tenho parentes nem amigos na guerra,
eu que sou estrangeiro diante de tudo isto,
eu que estou na minha casa sossegada,
eu que não tenho guerra à porta,
- eu porque tremo e soluço?
Quem chora em mim, dizei - quem chora em nós?
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Tudo aqui vai como um rio farto de conhecer os seus meandros:
as ruas são ruas com gente e automóveis,
não há sereias a gritar pavores irreprimíveis,
e a miséria é a mesma miséria que já havia...
E se tudo é igual aos dias antigos,
apesar da Europa à nossa volta, exangue e mártir,
eu pergunto se não estaremos a sonhar que somos gente,
sem irmãos nem consciência, aqui enterrados vivos,
sem nada senão lágrimas que vêm tarde, e uma noite à volta,
uma noite em que nunca chega o alvor da madrugada...
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Adolfo Casais Monteiro
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(1908 - 1972)
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Fts: Walter
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17/04/2011

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Com a Altura da idade a Casa se Acrescenta
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Com a altura da idade a casa se acrescenta.
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Não é que aumente a quantidade ao espaço.
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Mas, sendo mais longínquos, o desapego pensa
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maior distância quando se fica a olhá-lo.
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Ou, se quiserem, uma realeza
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se instala à volta dessa altura de anos,
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de forma a que os objectos apareçam
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na luz de quase já nem os amarmos.
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Então a casa distende-se na intensa
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inteligência de estarmos
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a ver as coisas a amarem-se a si mesmas.
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Ou com a forma a difundir seu espaço.
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Fernando Echevarría, in "Figuras"
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Fts: Walter
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10/04/2011

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Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos. Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles.
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A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor, eis que permite que o objecto dela se divida em outros afetos, enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade.
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E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas
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enlouqueceria se morressem todos os meus amigos! Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências...
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A alguns deles não procuro, basta-me saber que existem. Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida.
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Mas, porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto gosto deles. Eles não iriam acreditar.
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Muitos deles estão lendo esta crónica e não sabem que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos.
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Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, embora não declare e não os procure. E às vezes, quando os procuro, noto que eles não têm noção de como me são necessários, de como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital, porque eles fazem parte do mundo que eu, tremulamente, construí e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida. Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado. Se todos eles morrerem, eu desabo!
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Por isso é que, sem que eles saibam, eu rezo pela vida deles. E me envergonho, porque essa minha prece é, em síntese, dirigida ao meu bem estar. Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo. Por vezes, mergulho em pensamentos sobre alguns deles. Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos, cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim, compartilhando daquele prazer... Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos, e, principalmente os que só desconfiam ou talvez nunca vão saber que são meus amigos! A gente não faz amigos, reconhece-os.
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Vinicíus de Moraes
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este, é o único e singelo presente de aniversário
que tenho para te oferecer:
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a tua amada cidade de Lisboa e a minha terna e eterna amizade.
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Parabéns, meu amigo!
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Lisboa, 10 de Abril de 2o11
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fts: walter
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03/04/2011

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Acrílico S/Tela - Autor: F. Pedrosa (Walter)

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Se Eu Pudesse Trincar a Terra Toda
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Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Seria mais feliz um momento...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva...
O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja...
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Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XXI"
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30/03/2011

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Amigo, perdi o caminho..... Eco: O caminho prossegue.
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Há outro caminho?.... Eco: O caminho é só um.
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Tenho que reconstituir o trilho..... Eco: Está perdido e desapareceu.
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Para trás, tenho que caminhar para trás!.... Eco: Nenhum vai lá ter,
nenhum.
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Então farei daqui o meu lugar,.... Eco: (A estrada continua),
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Permanecerei imóvel e fixarei o meu rosto,.... Eco: (A estrada avança),
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Ficarei aqui, ficarei para sempre..... Eco: Nenhum se fica por aqui,
nenhum.
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Não consigo encontrar o caminho..... Eco: O caminho prossegue.
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Oh, os lugares por que passei!.... Eco: Essa viagem acabou.
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E o que virá por fim?.... Eco: A estrada prossegue.
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EDWIN MUIR
(1887-1959)
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TRAD: Cecília Rego Pinheiro
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fts: walter
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16/03/2011

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AOS QUE VIRÃO A NASCER
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I
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É verdade, vivo em tempo de trevas!
É insensata toda a palavra ingénua. Uma testa lisa
Revela insensibilidade. Os que riem
Riem porque ainda não receberam
A terrível notícia.
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Que tempos são estes, em que
Uma conversa sobre árvores é quase um crime
Porque traz em si um silêncio sobre tanta monstruosidade?
Aquele ali, tranquilo a atravessar a rua,
Não estará já disponível para os amigos
Em apuros?
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É verdade: ainda ganho o meu sustento.
Mas acreditem: É puro acaso. Nada
Do que eu faço me dá o direito de comer bem.
Por acaso fui poupado (Quando a sorte me faltar, estou perdido.)
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Dizem-me: Come e bebe! Agradece por teres o que tens!
Mas como posso eu comer e beber quando
Roubo ao faminto o que como e
O meu copo de água falta a quem morre de sede?
E apesar disso eu como e bebo.
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Também eu gostava de ter sabedoria.
Nos velhos livros está escrito o que é ser sábio:
Retirar-se das querelas do mundo e passar
Este breve tempo sem medo.
E também viver sem violência
Pagar o mal com o bem
Não realizar os desejos, mas esquecê-los.
Ser sábio é isto.
Eu nada disso sei fazer!
É verdade, vivo em tempo de trevas!
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II
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Cheguei às cidades nos tempos da desordem
Quando aí grassava a fome
Vim viver com os homens nos tempos da revolta
E com eles me revoltei.
E assim passou o tempo
Que na terra me foi dado.
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Comi o meu pão entre as batalhas
Deitei-me a dormir entre os assassinos
Dei-me ao amor sem cuidados
E olhei a natureza sem paciência.
E assim passou o tempo
Que na terra me foi dado.
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No meu tempo as ruas iam dar ao pântano.
A língua traiu-me ao carniceiro.
Pouco podia fazer. Mas os senhores do mundo
Sem mim estavam mais seguros, esperava eu.
E assim passou o tempo
Que na terra me foi dado.
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III
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Vós, que surgireis do dilúvio
Em que nós nos afundámos
Quando falardes das nossas fraquezas
Lembrai-vos
Também do tempo de trevas
A que escapastes.
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Pois nós, mudando mais vezes de país que de sapatos, atravessámos
As guerras de classes, desesperados
Ao ver só injustiça e não revolta.
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E afinal sabemos:
Também o ódio contra a baixeza
Desfigura as feições.
Torna a voz rouca. Ah, nós
Que queríamos desbravar o terreno para a amabilidade
Não soubemos afinal ser amáveis.
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Mas vós, quando chegar a hora
De o homem ajudar o homem
Lembrai-vos de nós
Com indulgência.
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Bertolt Brecht
(1898-1956)
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fts: walter
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26/02/2011

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Se às Vezes Digo que as Flores Sorriem

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Se às vezes digo que as flores sorriem

E se eu disser que os rios cantam,

Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores

E cantos no correr dos rios...

É porque assim faço mais sentir aos homens falsos

A existência verdadeiramente real das flores e dos rios.

Porque escrevo para eles me lerem sacrifico-me às vezes

À sua estupidez de sentidos...

Não concordo comigo mas absolvo-me,

Porque só sou essa cousa séria, um intérprete da Natureza,

Porque há homens que não percebem a sua linguagem,

Por ela não ser linguagem nenhuma.

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Alberto Caeiro, in " O Guardador de Rebanhos - Poema XXXI"

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fts: walter

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Meus amigos
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aprendam o sorriso da flor e o cantar do rio!
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com um sorriso largo e um abraço saudoso, digo-vos um ATÉ JÁ!
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19/02/2011

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Título: As vozes - Técnica mista s/tela - Autor: F. Pedrosa (Walter)
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Benditas sejam as histórias
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Benditas sejam as histórias do princípio de tudo
porque são limpas e são puras como o mel
e como a água que a palavra perfeita converte
em leite ou em espuma na boca atónita dos crentes.
Benditas sejam, para sempre, as histórias
que me fizeram acreditar na bondade dos homens
antes que a vida me tivesse conduzido
ao mais absoluto e inapelável desengano.
Eu já tive a idade das histórias que ouvia contar,
das que viviam fora dos livros,
das que corporizavam no ar os duendes e as fadas,
das que me faziam acreditar que podia ser eterno
como os príncipes entronizados no cume das lendas,
belos como cascatas refrescando a erva.
Benditas sejam, para sempre, as histórias,
mesmo as que ninguém me chegou a contar,
mas que eu inventei com o fascinado engenho
de uma infância debruada a ouro nos esconderijos
da fala que silêncio algum ousou vencer.
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José Jorge Letria, in "Produto Interno Lírico"
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Dedicadamente
a todos os contadores de histórias
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