02/11/2010

.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
Há em Toda a Beleza uma Amargura
.
.
.
Há em toda a beleza uma amargura
secreta e confundida que é latente
ambígua indecifrável duplamente
oculta a si e a quem na olhar obscura
.
.
Não fica igual aos vivos no que dura
e a não pode entender qualquer vivente
qual no cabelo orvalho ou brisa rente
quanto mais perto mais se desfigura
.
.
Ficando como Helena à luz do ocaso
a língua dos dois reinos não lhe é azo
senão de apartar tranças ofuscante
.
.
Mas à tua beleza não foi dado
qual morte a abrir teu juvenil estado
crescer e nomear-se em cada instante?
.
.
Walter Benjamin, in "Sonetos"
.
Tradução de Vasco Graça Moura
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
fts: walter
.
.
.

30/10/2010

.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
BALADA DE OTOñO
.
Joan Manuel Serrat
.
.
.
Llueve, detrás de los cristales, llueve y llueve
sobre los chopos medio deshojados, sobre los
pardos tejados, sobre los campos, llueve.
Pintaron de gris el cielo y el suelo se fue
abrigando con hojas, se fue vistiendo de otoño.
La tarde que se adormece parece un niño que el
viento mece con su balada en otoño. Una
balada en otoño, un canto triste de melancolía,
que nace al morir el dia. Una balada en otoño,
a veces como un murmullo, y a veces como un
lamento y a veces viento. Llueve, detrás de los
cristales, llueve y llueve sobre los chopos medio
deshojados, sobre los pardos tejados sobre los
campos, llueve. Te podría contar que esta
quemándose mi último leño en el hogar, que
soy muy pobre hoy, que por una sonrisa doy
todo lo que soy, porque estoy solo y tengo
miedo. Si tú fueras capaz de ver los ojos tristes
de una lámpara y hablar con esa porcelana que
descobrí ayer y que por un momento se ha
vuelto mujer. Entoces, olvidando mi mañana y
tu pasado volverías a mi lado. Se va la tarde y
me deja la queja que manãna será vieja de una
balada en otoño.
Llueve, detrás de los cristales, llueve y llueve
sobre los chopos medio deshojados...
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
fts: walter
.
.
.
.

20/10/2010

.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.

.

.

Outono

.
.
.
As folhas caem como se do alto
caíssem, murchas, dos jardins do céu;
caem com gestos de quem renuncia.
.
E a terra, só, na noite de cobalto,
cai de entre os astros na amplidão vazia.
.
Caímos todos nós. Cai esta mão.
Olha em redor: cair é a lei geral.
.
E a terna mão de Alguém colhe, afinal,
todas as coisas que caindo vão.
.
.
Rainer Maria Rilke
.
.

.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
fts: Walter
.
.
.

08/10/2010

.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
da ressalva de um beijo em bandeja de prata
do jasmim és errata de uma arquitectura pungente
do marfim és a salva de um véu redentor
como abóbada de um templo há tanto pingente
de agora em diante sigo o teu indício de odor
do alecrim és incenso na partilha do fulgor
.
por amor conduzes ao peito um pórtico emergente
da boca és o céu a ser o tecto presente
inefáveis os passos por onde passas indiferente
adenda mítica nas veredas de um universo maior
de agora em diante o teu sorriso é o bastante
para que adiante te escolte um cavaleiro andante
na voragem do estio onde és pavio superior

.
.
No dia 8 de Outubro de 2009, por esta porta entrei pela primeira vez... faz hoje precisamente um ano.
.
.
Desse dia, guardo na memória este belíssimo poema, significando ele para mim, a raiz de uma amizade que foi crescendo bela e sadia e que anseio ser para todo o sempre.
.
.
Walter
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
fts: walter
.
.
.
.
.
.
.
.

12/09/2010

O LAMENTO DA TERRA

.
.
.

.
.
.

.

.

.

.
.
.
.
O LAMENTO DA TERRA
.
.
.
Um dia, quando dissermos: «Era o tempo do sol,
.
Recordem-se, alumiava o mais pequeno ramo
.
E tanto a mulher idosa como a rapariga admirada,
.
Sabia dar a sua cor às coisas mal nelas pousava.
.
Seguia o cavalo corredor e parava com ele.
.
Era o tempo inesquecível em que estávamos sobre a Terra,
.
Em que fazia barulho deixar cair qualquer coisa,
.
Olhávamos em volta com os nossos olhos versados,
.
Os nossos ouvidos entendiam todas as subtilezas do ar,
.
E quando o passo do amigo aí vinha, logo o sabíamos;
.
Apanhávamos tanto uma flor como uma pedra polida,
.
O tempo em que não podíamos agarrar o fumo,
.
Ah! só isso as nossas mãos apanhariam agora.»
.
.
Jules Supervielle, in "Rosa do Mundo - 2001 Poemas para o Futuro"


 
Trad: Filipe Jarro

.
.

.
.

.
.
.

.
.
.

.
.
.

.
.
.
.
.
.

.
.
.

.
.
.



 

.
.
.
fts: walter
.
.

10/09/2010

era manhã e o tempo entristecia

.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
era manhã e o tempo entristecia na agitação de uma cidade desmedida
.
ninguém dava por isso e quem dava não sentia
.
as canções dos torreões tocata e fuga em direcção aos céus
.
cavalos alados de outras Tróias
.
carregando no seu ventre inocência fogo trevas e luz de uma mal escrita
.
história
.
e se em Setembro todos fomos iguais americanos e espartanos
.
perguntamos agora se por um acaso
.
seremos hoje tão mais humanos
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
Fts:walter
.
.