10/09/2010

era manhã e o tempo entristecia

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era manhã e o tempo entristecia na agitação de uma cidade desmedida
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ninguém dava por isso e quem dava não sentia
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as canções dos torreões tocata e fuga em direcção aos céus
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cavalos alados de outras Tróias
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carregando no seu ventre inocência fogo trevas e luz de uma mal escrita
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história
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e se em Setembro todos fomos iguais americanos e espartanos
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perguntamos agora se por um acaso
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seremos hoje tão mais humanos
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Fts:walter
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05/09/2010

Pinhal do rei

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Pinhal do rei
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Catedral verde e sussurante, aonde
a luz se ameiga e se esconde
e aonde ecoando a cantar
se alonga e se prolonga a longa voz do
mar,
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ditoso o Lavrador que a seu contento
por suas mãos semeou este jardim:
ditoso o Poeta que lançou ao vento
esta canção sem fim....
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Ai, flores, ai flores do Pinhal florido,
que vedes no mar?
Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
rei dom Denis, bom poeta e mau marido
lá vem as velidas bailar e cantar.
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Encantado jardim da minha infância
aonde a minh' alma aprendeu
a música do Longe e o ritmo da Distância
que a tua voz marítima lhe deu;
místico orgão cujo o além se esfuma
no além do Oceano, e aonde a maresia
ameiga e dissolve em bruma
e em penumbras de nave, a luz do dia.
Por estes fundos claustros gemem
os ais do Velho do Restelo
Mas tu debruças-te no mar e, ao vê-lo,
Teus velhos troncos de saudosos fremem...
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Ai flores, ai flores do Pinhal louvado,
que vedes no mar?
Ai flores, ai flores do Pinhal louvado,
São as Caravelas, teu corpo cortado,
É do verde pino no mar a boiar.
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Pinhal de heróicas árvores tão belas,
foi do teu corpo e da tua alma também
que nasceram as nossa caravelas
ansiosas de todo o Além;
foste tu que lhes deste a tua carne em flor
e sobre os mares andaste navegando,
rodeando a Terra e olhando os novos
astros,
oh gótico Pinhal navegador
em naus erguida levando
tua alma em flor na ponta alta dos
mastros!...
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Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
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que vedes no mar?
Ai flores, ai flores do pinhal florido
que grande saudade, que longo gemido
ondeia nos ramos, suspira no ar.
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Na sussurrante e verde catedral
ouço rezar a alma de Portugal;
ela aí vem, dorida, e nos seus olhos,
sonâmbulos de surda ansiedade
no roxo da tardinha,
dorida do naufrágio e dos escolhos,
viúva dos seus bens
e pálida de amor,
arribada de todo os aléns
de este mundo de dor:
ela aí vem, sózinha,
e reza a ladainha
na sussurrante catedral aonde
toda se espelha e se esconde,
e aonde ecoando a cantar
se alonga e se prolonga a longa voz do mar
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Do notabilíssimo poeta Leiriense
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Afonso Lopes Vieira
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Afonso Lopes Vieira - 1878-1946
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Fts: Walter
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28/08/2010

uma página rubra de felicidade...

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explode-me o coração rubro de felicidade...
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das sombras fiz a luz
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dos bancos com pés de fogo
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uma orquestra de tambores
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toco o hino da alegria
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dança a minha alma de contente
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embriagada por tanto vermelho
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Walter
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um banquinho é para ti...
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nos outros se sentarão
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aqueles que fazem a felicidade
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do teu coração
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dedicadamente para um Ser único
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fts: Walter
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20/08/2010

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Mar sonoro
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Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim,
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho,
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.
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Sophia de Mello Breyner Andresen
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fts: Walter
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14/08/2010

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bater de asas
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cruzaste-me o olhar num engano de tempo e eu não sei porque chegaste tão
cedo
falei-te ao ouvido o calor estalava o azul-marinho amarelo e preto destes
barcos que são a minha casa
reconhecido canto de um mar profundo onde cada peixe que saltava saciava a
tua fome num segundo
senti-te frágil e tremente com saudades de uma viagem aquela que
empreendemos na rota das estrelas peito em quilha à conquista dos panos
enfunados de um navio
navegante altivo de marés fantasma as que me falam dos homens-pássaro
porque pássaro sou eu
e digo adeus à tristeza dos teus braços que me embalam no meu último
grito e força para gritar eu já não tinha
assim mansa e serena desejei ficar esvoacei e resisti pois não te via
esperei por ti por te saber ausente e reconheci-te gaivota no pôr-do-sol ao
meio dia
mas se em tudo há um propósito escondido e a natureza das coisas imperfeita
seja eu a terna quimera de um pássaro rendido
em cada amanhecer à tua espera
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manuela baptista
histórias com mar ao fundo
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fts: Walter
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06/08/2010

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Eu morri pela Beleza
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Morri pela Beleza - Mas mal me tinha
Acomodado à Campa
Quando Alguém que morreu pela Verdade,
da Casa ao lado -
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Perguntou baixinho "Por que morreste?"
"Pela Beleza, respondi -
"E eu - pela Verdade - Ambas são iguais -
E nós também, somos Irmãos", disse Ele -
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E assim, como parentes próximos, uma Noite -
Falámos de uma Casa para a outra -
Até que o Musgo nos chegou aos lábios -
E cobriu - os nossos nomes -
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Emily Dickinson, in "Poemas e Cartas"
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Fts: Walter
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