28/05/2010

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Toma-me ó noite em teus jardins suspensos
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Em teus páteos de luar e de silêncio
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Em teus adros de vento e de vazio.
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Sophia de Mello Breyner Andresen
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De mim para mim...
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este voo solitário, estes páteos de silêncio.
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fotos:Walter
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22/05/2010

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Des.laço[-me] no [Re]pouso do Sudário
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As horas edificaram os dias em que a dor se apartou do horizonte.
Respiro profundamente em lufadas de outrora e volto a ser feliz.
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As asas são agora de pássaro esvoaçante em céu longínquo e remoto.
Vogalizo o silêncio em grito sibilante
nas consoantes que formam palavras em rima de auxílio.
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O mundo é de nuvens onde a alma se sustenta avidamente.
O sol exalta o corpo arrefecido em maré baixa
e renasço para a vida que presenteia a temporada da efémera existência.
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Sinto[-a] de lés a lés e arredo o sofrimento que porfiei sem desígnio.
Algures, a esperança em sílabas, musicaliza o movimento ritmado do corpo,
em tom de espectativa constante, teimosamente presente.
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. Paulo Intemporal .
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Num dia muito especial, para um amigo muito especial.
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22 de Maio de 2010
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Fotos: Walter
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14/05/2010

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«...é moço! nem lembro mais que sou ainda um menino... a vida me envelheceu para lá da conta...!»
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A. Carneiro - (Paçoquinha)
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Rio de Janeiro, julho de 1997
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Gouache s/papel - 1997 - "série muros" - autor: Walter
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Criança
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Cabecinha boa de menino triste,
de menino triste que sofre sozinho,
que sozinho sofre, - e resiste.
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Cabecinha boa de menino ausente,
que de sofrer tanto se fez pensativo,
e não sabe mais o que sente...
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Cabecinha boa de menino mudo,
que não teve nada, que não pediu nada,
pelo medo de perder tudo.
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Cabecinha boa de menino santo
que do alto se inclina sobre a água do mundo
para mirar seu desencanto.
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Para ver passar numa onda lenta e fria
a estrela perdida da felicidade
que soube não possuiria.
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Cecília Meireles, in "Viagem"
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Gouache s/papel - 1997 - "série muros" - autor: Walter
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Gouache s/papel - 1993 - autor: Walter
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Em leito de terra dourada me deito
O cantar do frio vento me embala
Um manto de estrelas me aquece
Adormeço...
Acreditem ou não... também sonho!
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Walter
14 de Julho de 1997
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09/05/2010

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. óleo s/tela - título: «e eram tantas as almas em debandada...» - autor: Walter
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Tal a vida
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Em declive trepamos pela nuvem
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dos dias - em declive circundamos
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obscuros cristais
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transportados no sangue - e somos e
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levantamos
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as cores primitivas da fonte a luz
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que resvala corpo a corpo
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a semente sazonada de quem roubou
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o fogo - em declive canto
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a ternura diluída a luz reflectida
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neste muro onde vejo
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a secreção da fala onde ouço
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um caminho de metáforas: tal
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a vida -
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. . . . . Casimiro de Brito, in "Negação da Morte"
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03/05/2010

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Vida Sempre
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Entre a vida e a morte há apenas
o simples fenómeno
de uma subtil transformação. A morte
não é morte da vida.
A morte não é inação, inutilidade.
A morte é apenas a face obscura,
mínima, em gestação
de uma viagem que não cessa de ser. Aventura
prolongada
desde o porão do tempo. Projectando-se
nas naves inconcebíveis do futuro.
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A morte não é morte da vida: apenas
novas formas de vida. Nova
utilidade. Outro papel a desempenhar
no palco velocíssimo do mundo. Novo ser-se (comércio
do pó) e não se pertencer.
Nova claridade, respiração, naufrágio
na máquina incomparável do universo.
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Casimiro de Brito, in "Solidão Imperfeita"
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Fotos:Walter
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30/04/2010

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Liberdade
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Aqui nesta praia onde
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Não há nenhum vestígio de impureza,
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Aqui onde há somente
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Ondas tombando ininterruptamente,
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Puro espaço e lúcida unidade,
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Aqui o tempo apaixonadamente
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Encontra a própria liberdade.
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Sophia de Mello Breyner Andresene
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Fotos: Walter
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Sesimbra, Abril de 2010
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18/04/2010

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Olhando o mar, sonho sem ter de quê
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Olhando o mar, sonho sem ter de quê.
Nada no mar, salvo o ser mar, se vê.
Mas de se nada ver quanto a alma sonha!
De que me servem a verdade e a fé?
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Ver claro! Quantos, que fatais erramos,
Em ruas ou em estradas ou sob ramos,
Temos esta certeza e sempre e em tudo
Sonhamos e sonhamos e sonhamos.
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As árvores longíquas da floresta
Parecem, por longíquas, 'star em festa.
Quanto acontece porque não se vê!
Mas do que há pouco ou não há o mesmo resta.
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Se tive amores? Já não sei se os tive.
Quem ontem fui já hoje em mim não vive.
Bebe, que tudo é líquido e embriaga,
E a vida morre enquanto o ser revive.
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Colhes rosas? Que colhes, se hão-de ser
Motivos coloridos de morrer?
Mas colhe rosas. Porque não colhê-las
Se te agrada e tudo é deixar de o haver?
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. Fernando Pessoa .
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Amigos: Até já...!
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Fotos: Walter
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10/04/2010

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Ode à Paz
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Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
Pela branda melodia do rumor dos regatos,
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Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos,
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que grotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pelas futuras manhãs dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História,
*************deixa passar a Vida!
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Natália Correia, in "In Inéditos (1985/1990)"
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O Amor a Poesia e a Flor... nada mais!
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Sintam-se em Paz neste jardim que plantei para vós...
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Walter
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Fotos: Walter
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